Ora olha!

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Localização: Coimbra, Portugal

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Hábitos

Cristais brancos, brilhantes e frios.
O calor evaporava-se-lhe com a respiração, trémula, que fazia.
Estava na rua e estava muito frio.
Olhava a geada. O dia ia ser limpo, de sol escasso, arrefecido, de noite comprida.
Era muito cedo, tinha coisas para fazer e ficar na cama, nessa manhã, era algo a que não se podia permitir.
Pensava no seu início de dia. Tinha levantado o corpo da cama quente, enxugou-se de um banho rápido e vestiu-se agasalhadamente. Passou pela cozinha, trincou um pouco de pão e bebeu leite morno. Lavou uma maçã que guardou na mala e saiu. Todos os dias a mesma coisa. A variação estava no tempo. Quer no aspecto meteorológico da questão, quer no temporal. Que enfado!
Agitou-se.
Entrou no café onde ia habitualmente, bebeu a primeira bica, adocicada e aromática, puxou para si o jornal diário, folheando-o. Começava por ler sempre o seu horóscopo, depois passava os olhos pelo estado do tempo no país, respectivas temperaturas e estado do mar. Seguiam-se as letras gordas dos títulos destacados. Reflectia, ligeiramente, neles e passava os olhos atentos pelo desenvolvimento da notícia que mais lhe agradava, acabando naquela que menos interece lhe despertava. Esfregava as mãos, enquanto lia, para as aquecer e batia, suavemente, com um dos pés no chão. O calor do estabelecimento era agradável, perturbado, de quando em quando, pelo entrar mais vagaroso de um ou outro cliente. Gostava daquele momento do seu dia, achava mesmo que era um belo início. Sentia as forças mais revigoradas quando saía, pela segunda vez, para a rua. E com essa sensação apreciava mais o que o ia rodeando, à medida que caminhava até ao seu destino.
O seu trabalho era daqueles de fazer sempre a mesma coisa. Não tinha a sorte de poder desenvolver a sua criatividade. Estava tudo pré-definido, estipulado. Cabia-lhe a responsabilidade de fazer bem aquilo que outros planearam, sem refutar, sem questionar, sem inovar. Era chato. Mas era assim.
Pelo menos o seu local de trabalho era confortável. Boa temperatura ambiente, luminosidade natural, clara e distinta. Secretárias espaçosas, computadores rápidos. As pessoas ali enfiadas, como ele, eram normais: ensonadas ao início da manhã, mais despertas no fim da mesma; expressões sérias de olhar vago, por vezes longínquo; uns mais gordos, outros mais magros, com e sem olheiras, mais maquilhagem, menos maquilhagem... enfim, rotineiros.
Mas tinha que ser assim, pensava. No final do mês, afinal, tudo isso era perdoado.
Consultou o relógio.
A hora de saída aproximava-se.
Começava a ficar deliciado. Sabia que estava perto do momento para o qual acordava todos os dias: chegar a casa depois do trabalho.
Aí ganhava pontos a todos os que conhecia nesse jogo que é a vida. Era um dos melhores.
A casa! O seu refúgio, o seu castelo.
Trabalhava muito para manter a sua vida simples agradável. Sabia que o trabalho o dignificava e lhe ia permitindo a pequenos prazeres que lhe enchiam o coração.
Poder ter um sítio seu, partilhá-lo com quem amava, guarnece-lo de afectos, emoções, risos, cheiros, lágrimas, carinhos, confissões, amor... Era a sua grande vitória! Lutou muito. Conseguiu. Foi difícil. É difícil. Mas sabia que era feliz e tinha ainda muito tempo para marcar a diferença.
O trabalho, um dia, ia ser menos rotineiro, ia ser mais criativo, feliz. Porque ele espelhava isso e a vida é sempre um reflexo de nós.



Sweet Exile

terça-feira, dezembro 19, 2006

Prático e eficaz.

Não gosto... (Hoje sou do não)



Não gosto de queijo.
Não gosto de fígado.
Não gosto de moelas.
Não gosto de perfumes florais doces. Enjoam-me.
Não gosto de roupa suja nem rota.
Não gosto de cheirar comida fria.
Não gosto de livros light, tipo "Sei lá".
Não gosto de ignorância.
Não gosto de estupidez natural. Não a percebo.
Não gosto de arrogância.
Não gosto de frieza.
Não gosto de má educação.
Não gosto de Marco Paulo e Toni Carreira. Nem Micaela.
Não gosto de desconforto.
Detesto conflitos. Amarguram-me.
Não gosto de algumas pessoas. Repulsam-me.
Não gosto de anéis finos nos meus dedos.
Não gosto de me sentir só.
Não gosto de assentos duros nem de cadeiras metálicas.
Não gosto de esplanadas junto de uma estrada cheia de automóveis.
Irrita-me que me interrompam enquanto leio o jornal de manhã.
Irrita-me ser tão picuinha às vezes.
Não gosto de dar espirros. Simplesmente não me aliviam.
Não gosto de roer as unhas. Nem de unhas roídas.
Abomino aranhas, cobras e osgas.
Não gosto da pele desses animais.
Não gosto de sopa fria. Mas gosto muito de sopa.
Não gosto de cor de rosa. Mas às vezes uso.
Não gosto de birras. Mas faço algumas.
Não gosto de crisântemos. Mas gosto muito de outras flores.
Não gosto que me magoem. Muito menos deliberadamente.

Eu já magoei deliberadamente.
E é o que eu menos gosto em mim.


Sweet Exile


domingo, dezembro 17, 2006

Pai Natal ou Menino Jesus????



Como a Carlinha não quer Natal este ano, decidi deixar isso com um entendido na matéria...
Portanto, que o julgamento comece!

Um beijinho para ti Carlinha!


Sweet Exile

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Poema












Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva de uma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-los passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

(António José Forte, Poema)


(Foto: Oceano Atlântico, Abril 2005)

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Bebendo um chá...

(foto: Rio Côa, Quinta de Ervamoira, Douro, Portugal, 2003)

Um dia resolveu pedir para nascer.
E não é que deixaram!?!
Estendida, numa singeleza anónima, prostrada num cadeirão frio, velho e bafiento, abriu os olhos.
Mirou o espaço à sua volta. As paredes, esbatidas de um amarelo quente, rodeavam-na. O mobiliário era escasso, simples: uma mesa, duas cadeiras confortáveis, um candeeiro apagado, uma vela acesa. Ao fundo, no lado oposto ao da porta, uma arca de madeira escura. Grande, comprida e larga.
Reparou nas janelas, o sol mostrava os primeiros raios que irrompiam, fugazes ainda, pelas cortinas poídas e gastas.
Doía-lhe o corpo. Tinha as pernas pesadas como se tivesse corrido, desenfreadamente, durante horas. Reparou que estava descalça, sensação que não a confortava. Levantou-se.
O vestido estava rasgado no fundo, junto à baínha. Cheirava a baunilha com uma mistura de tabaco seco e canela. Sentiu a pele arrepiada, os pés frios. O frio da sala, do corpo, fê-la despertar. Abriu os olhos, grandes, expressivos, pestanejou e procurou um agasalho.
Tinha que pensar.
Encontrou um xaile quente, de uma lã fina, por cima da arca. Tinha contornado a sala e agora sentia-se mais quente.
Apetecia-lhe um chá, mas não havia. Tinha de sair para se alimentar. Mas onde estava?
Desenturpeceu os músculos, largou a perguiça e desprendeu-se do marasmo.
Finalmente teve coragem e chegou-se à janela. O rio ao fundo e todo o extenso vale aos seus pés. Magnífico! A comunhão perfeita de um simples ser com a Natureza. A fusão, a paz...
Valia a pena ter pedido para nascer de novo. E que graça lhe foi concedida aquando do sim!
Desta vez ia dar o seu melhor. Desta vez ia viver.
E ia começar a sua saga bebendo um chá...
Sweet Exile

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Crash (In to me..)



Dave Matthews e Tim
Reynolds... Huuummm delicioso, superior.
Nada melhor para uma manhã de segunda feira, ensolarada, colorida, fria, invernal, natalícia, apaixonada e, sobretudo, sublime.
Crash in to me é um tema onde o amor, a paixão, o sentido de partilha e comunhão entre dois seres se transforma no verdadeiro sentido da existência, numa melodia sincronizada, poética, dolorosamente realista e emocionante.
Não tem necessáriamente a ver com a segunda feira, mas com os dias. Todos.
Sobretudo tem a ver com um jeito, uma forma de encarar, de olhos abertos, um desses novos dias para os quais, por vezes, despertamos.

P.S.: Susana, este miminho também é para ti.

Sweet Exile