Ora olha!

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Localização: Coimbra, Portugal

Quinta-feira, Setembro 04, 2008

Vidas... e outros complementos meus I

Tinha dois olhitos pequenos, sabidos, vivos. Olhava para mim descaradamente. Não me conhecia mas sabia tudo sobre mim. Era sábia. Esperta. Viva. Que vulnerabilidade a minha! Tinha cabelos rebeldes, castanho- escuro. Demonstrava um potencial carismático que me enebriava e, por isso, sonhei com ela. Temor? Não sei. Respeito? Possivelmente. E um enorme peso de responsabilidade que suscitava a curiosidade de quem quer mas não sabe se pode. Ela era assim: uma perfeita estranha. Mas era, ainda mais, violentamente tentadora. E a curiosidade de a conhecer crescia cada vez mais. Piorava em cada vez que me confundia com aqueles olhitos fundos e brilhantes que lhe eram tão característicos. Mas o impulso e a pressa são inimigos da perfeição. Devo ficar-me pela observação da coisa em si. Devo respeitar o tempo. Devo parar agora. O sentimento, esse, só cresce. Mas calado.

Sweet Exile

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

Veredícto

Dizia que lhe doía a voz. Que lhe doíam os dedos. Não escrevia. Não falava. E tudo o que comunicava era falso e sem jeito. Mas, como que coberto por um pano muito grosso e discreto, o seu discurso facial, o seu olhar e os seus lábios, pareciam coerentes, lúcidos e vivos. Assim o seu ar era de alguém mais apaziguado hoje que ontem. Amava, calado, essa dor que lhe tirava o silêncio pessoal, que gritava alto e berrava constantemente dentro de si, a tal ponto que, às vezes, já não consegui ouvir os outros. Por isso sorria e todos pensavam e elogiavam o bom ouvinte que ele era: o amigo de ombro sempre pronto e sempre dado. Na realidade, fazia-o para se distrair dos gritos, para consumo imediato, como pílulas para a dor de cabeça, ou enxaquecas desfiguradas e revoltantes. E como em qualquer obecessão pensava, então, que amava essa dor. Ela era esperta, fútil, matreira. Sabia esperar o momento certo para o atormentar, para o deixar de rastos, vazio, seco. Achava-a bonita até, ou então só atraente.
Sentia-se um egoísta. E um parvo, um tolo, enganado pela dor que não valia um segundo do seu tempo. Era um egoísta vaidoso, orgulhoso, pequeno. Ínfimo. Como ser outro? Como virar para o trilho certo? E que trilho era esse? Onde estava, que não o definia? "Quero-te longe de mim!", berrou, certo dia, para a dor. Mas ela, raposa, escondia-se, para logo a seguir lhe arrancar um pouco mais de si mesmo, um pouco mais de bom. E ele, fraco, caía de novo, iludido pelo seu abraço, pelo seu cativante charme, pelos seus contornos ficcionados. "Sou um palerma", pensava. Deitava-se com ela e com ela acordava. Sentia o seu ciúme quando dormia com outra. E depois, o castigo de tal acto ousado, de sabor a liberdade. Assim temia-a ainda mais, venerava-a um pouco menos, mas dependia dela como nunca.
Assim era ele, assim era a dor. E deles, nunca mais se soube.
Sweet Exile

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Habla Me



Habla me
Como te camelo yo
Quere me
Como te amo yo

Es un amor tan grande
De que amor que yo tenia lo guardaba
Es como un final y volvera ye

Quere me
Como te camelo yo
Quere me
Como te amo yo

Es un amor possible
De que amor que yo tenia lo guardaba
Es como un final y volvera ye

Y ya volvera ver
Que no hay comprende
De que amor que yo tenia lo guardaba
Es como un sueno y volvera ye
Yo se que volveras y no san fin el amor
De que amor que yo tenia lo guardaba
Es como un sueno y volvera ye

Gipsy Kings


Sweet Exile

Sábado, Novembro 17, 2007

Menos 4 ºc

Menos quatro graus negativos. Geada. Céu limpo, estrelado.
A Lua, pequenina, aparece apenas como uma singela luz de presença, de fraco brilho, sem intenção de ofuscar as estrelas que procuram os seus eternos minutos de fama. Constelações, jogos de luz intermitente, incansáveis. O que procuram? Porque brilham sempre? Não se cansam?
São porquês tão infantis os meus!

É a minha última noite aqui. Talvez no Natal regresse. Talvez antes. Quero ver este frio de novo. Quero sentir as estrelas geladas que brilham já ali em cima. Mas agora é hora de ir. Deixo esses sinais nocturnos, intermitentes, deste topo de montanha. Sigo para sul.

Aqui cheira a resina da lenha que ardeu.
O silêncio é uma tranquila companhia.
Tudo dorme. Tudo está como que parado à espera que aqueça e a vida retome.
Também assim é o meu lado esquerdo...
O borralho da lareira é o meu último foco de luz quente. As estrelas, essas, hoje estão frias. Menos quatro graus. Brrrr!

Olha, dorme bem. Tu sabes...


Sweet Exile

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Sabia-me bem

Sabia-me bem saber-te. Comer uma nata com canela. Passear pela curta avenida ou pelas largas ruelas da cidade. Podia só tomar um café, apreciando o adormecer dos ultimos raios que desaparecem no espelho do rio. Podia só ficar sentada. Ou então de pé. Tanto faz. Sabia-me bem.

Sweet Exile

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

O conforto das pequenas coisas...


Oh, o conforto, o inexprimível conforto de nos sentirmos seguros junto de uma pessoa: não termos que ponderar os nossos pensamentos nem que medir as nossas palavras, mas apenas deixá-los seguir o seu curso. Tal como são a palha junta com o trigo, sabendo que uma mão fiel os apanhará e os passará pela joeira, guardando o que vale a pena guardar, e soprando o resto pelos ares, com o sopro da benevolência .

Talvez por isso não escrevia há tanto tempo neste pequeno canto. Deixou de ser confortável, cómodo. O pequeno alívio tornou-se num oceano revolto, cheio de tormentas e sombras difusas.
Ah, a vida!
Mas, como em qualquer mar, a acalmia um dia chegará. E viva, verei o deslumbre que a luz, no azul infinito, sempre me provoca.
Aí, a água será cálida, a brisa suave, o sol adormecido e quedo. E a lua irrequieta, sorrirá, divina. A terra, essa, continuará redonda.
Adoro viver. Simplesmente adoro.

P.S.: um beijo para a minha mãe.


Sweet Exile

Terça-feira, Julho 10, 2007

Inclinação sentimental

Dorme bem.
"Te quitabas la faja de la cintura, te arrancabas las sandalias, tirabas a un rincón tu amplia falda, de algodón, me parece, y te soltabas el nudo que te retenía el pelo en una cola. Tenías la piel erizada y te reías. Estábamos tan próximos que no podíamos vernos, ambos absortos en ese rito urgente, envueltos en el calor y el odor que acíamos juntos. Me abría paso por tus caminos, mis manos en tu cintura encabritada y las tuyas impacientes. Te deslizabas, me recorrías, me trepabas, me envolvías con tus piernas invencibles, me decías mil veces ven con los labios sobre los míos. En el instante final teníamos un atisbo de completa soledad, cada uno perdido en su quemante abismo, pero pronto resucitábamos desde el otro lado del fuego para descubrirnos abrazados en el desorden de los almohadones, bajo el mosquitero blanco. Yo te apartaba el cabello para mirarte a los ojos. A veces te sentabas a mi lado, com las piernas recogidas y tu chal de seda sobre un hombro, en el silencio de la noche que apenas comenzaba. Así te recuerdo, en calma. (...)
-Cuéntame un cuento -te digo.
-Cómo lo quieres?
-Cuéntame un cuento que no le hayas contado a nadie." (Carle, R.)


Hoje, Amor, não quero dizer mais nada.



Sweet Exile