Bebendo um chá...
(foto: Rio Côa, Quinta de Ervamoira, Douro, Portugal, 2003)Um dia resolveu pedir para nascer.
E não é que deixaram!?!
Estendida, numa singeleza anónima, prostrada num cadeirão frio, velho e bafiento, abriu os olhos.
Mirou o espaço à sua volta. As paredes, esbatidas de um amarelo quente, rodeavam-na. O mobiliário era escasso, simples: uma mesa, duas cadeiras confortáveis, um candeeiro apagado, uma vela acesa. Ao fundo, no lado oposto ao da porta, uma arca de madeira escura. Grande, comprida e larga.
Reparou nas janelas, o sol mostrava os primeiros raios que irrompiam, fugazes ainda, pelas cortinas poídas e gastas.
Doía-lhe o corpo. Tinha as pernas pesadas como se tivesse corrido, desenfreadamente, durante horas. Reparou que estava descalça, sensação que não a confortava. Levantou-se.
O vestido estava rasgado no fundo, junto à baínha. Cheirava a baunilha com uma mistura de tabaco seco e canela. Sentiu a pele arrepiada, os pés frios. O frio da sala, do corpo, fê-la despertar. Abriu os olhos, grandes, expressivos, pestanejou e procurou um agasalho.
Tinha que pensar.
Encontrou um xaile quente, de uma lã fina, por cima da arca. Tinha contornado a sala e agora sentia-se mais quente.
Apetecia-lhe um chá, mas não havia. Tinha de sair para se alimentar. Mas onde estava?
Desenturpeceu os músculos, largou a perguiça e desprendeu-se do marasmo.
Finalmente teve coragem e chegou-se à janela. O rio ao fundo e todo o extenso vale aos seus pés. Magnífico! A comunhão perfeita de um simples ser com a Natureza. A fusão, a paz...
Finalmente teve coragem e chegou-se à janela. O rio ao fundo e todo o extenso vale aos seus pés. Magnífico! A comunhão perfeita de um simples ser com a Natureza. A fusão, a paz...
Valia a pena ter pedido para nascer de novo. E que graça lhe foi concedida aquando do sim!
Desta vez ia dar o seu melhor. Desta vez ia viver.
E ia começar a sua saga bebendo um chá...
Sweet Exile

2 Comments:
Magnífico! Gosto da simples ideia de começar o dia com uma chávena bem quente de chá. É que pela fumegante boca da chávena, o movimento ténue da evaporação, encontro o caminho que os meus passos tanto anseiam. Gostei.
E eu gostei do teu comentário.
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