Hábitos
Cristais brancos, brilhantes e frios.
O calor evaporava-se-lhe com a respiração, trémula, que fazia.
Estava na rua e estava muito frio.
Olhava a geada. O dia ia ser limpo, de sol escasso, arrefecido, de noite comprida.
Era muito cedo, tinha coisas para fazer e ficar na cama, nessa manhã, era algo a que não se podia permitir.
Pensava no seu início de dia. Tinha levantado o corpo da cama quente, enxugou-se de um banho rápido e vestiu-se agasalhadamente. Passou pela cozinha, trincou um pouco de pão e bebeu leite morno. Lavou uma maçã que guardou na mala e saiu. Todos os dias a mesma coisa. A variação estava no tempo. Quer no aspecto meteorológico da questão, quer no temporal. Que enfado!
Agitou-se.
Entrou no café onde ia habitualmente, bebeu a primeira bica, adocicada e aromática, puxou para si o jornal diário, folheando-o. Começava por ler sempre o seu horóscopo, depois passava os olhos pelo estado do tempo no país, respectivas temperaturas e estado do mar. Seguiam-se as letras gordas dos títulos destacados. Reflectia, ligeiramente, neles e passava os olhos atentos pelo desenvolvimento da notícia que mais lhe agradava, acabando naquela que menos interece lhe despertava. Esfregava as mãos, enquanto lia, para as aquecer e batia, suavemente, com um dos pés no chão. O calor do estabelecimento era agradável, perturbado, de quando em quando, pelo entrar mais vagaroso de um ou outro cliente. Gostava daquele momento do seu dia, achava mesmo que era um belo início. Sentia as forças mais revigoradas quando saía, pela segunda vez, para a rua. E com essa sensação apreciava mais o que o ia rodeando, à medida que caminhava até ao seu destino.
O seu trabalho era daqueles de fazer sempre a mesma coisa. Não tinha a sorte de poder desenvolver a sua criatividade. Estava tudo pré-definido, estipulado. Cabia-lhe a responsabilidade de fazer bem aquilo que outros planearam, sem refutar, sem questionar, sem inovar. Era chato. Mas era assim.
Pelo menos o seu local de trabalho era confortável. Boa temperatura ambiente, luminosidade natural, clara e distinta. Secretárias espaçosas, computadores rápidos. As pessoas ali enfiadas, como ele, eram normais: ensonadas ao início da manhã, mais despertas no fim da mesma; expressões sérias de olhar vago, por vezes longínquo; uns mais gordos, outros mais magros, com e sem olheiras, mais maquilhagem, menos maquilhagem... enfim, rotineiros.
Mas tinha que ser assim, pensava. No final do mês, afinal, tudo isso era perdoado.
Consultou o relógio.
A hora de saída aproximava-se.
Começava a ficar deliciado. Sabia que estava perto do momento para o qual acordava todos os dias: chegar a casa depois do trabalho.
Aí ganhava pontos a todos os que conhecia nesse jogo que é a vida. Era um dos melhores.
A casa! O seu refúgio, o seu castelo.
Trabalhava muito para manter a sua vida simples agradável. Sabia que o trabalho o dignificava e lhe ia permitindo a pequenos prazeres que lhe enchiam o coração.
Poder ter um sítio seu, partilhá-lo com quem amava, guarnece-lo de afectos, emoções, risos, cheiros, lágrimas, carinhos, confissões, amor... Era a sua grande vitória! Lutou muito. Conseguiu. Foi difícil. É difícil. Mas sabia que era feliz e tinha ainda muito tempo para marcar a diferença.
O trabalho, um dia, ia ser menos rotineiro, ia ser mais criativo, feliz. Porque ele espelhava isso e a vida é sempre um reflexo de nós.
Sweet Exile

2 Comments:
A vida não é difícil, difícil é saber viver (jarrão popular)... É nas pequenas coisas que encontramos os maiores prazeres, num, e só um, copo de bom vinho, num chocolate, num cafezinho quentinho, numa carcaça com fiambre e uma meia de leite... para quê a luta incessante por um protótipo novo rico se dos sabores e cheiros que estão ao nosso alcance ainda há tanto a explorar.
os teus textos são sempre tao reconfortantes. adoro a maneira como escreves. tens de publicar.
beijos
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